Capitulo.I.
Um garoto acorda assustado, seus olhos em um tom castanho-claro estavam arregalados e suas sobrancelhas arqueadas, seus cabelos vermelhos caiam sobre seus ombros em pontas anguladas, sua camisa era branca e estava amarrotada, suas pernas estavam cobertas por um cobertor cinzento, ele estava em uma cama, num cômodo de madeira rústica, olhou para a direita e viu pela janela o manto negro da noite, olhou para a esquerda e viu uma cama vazia, após soltar um suspiro, deitou-se e cobriu-se até o pescoço.
“Onde esta você Thoet...”. Pensou ele ainda de olhos abertos, após um longo tempo olhando para o teto de madeira, o garoto e fechou os olhos.
Raios de sol rasgavam o vidro fino de sua janela e penetravam em suas pálpebras fazendo-o acordar, tirando o cobertor de cima de si e jogando para um lado o garoto se levantou e foi até uma cômoda de pinho com um enorme espelho, encima da cômoda estava uma bacia de prata e ao lado um jarro de porcelana branca, o garoto pegou o jarro e encheu a bacia com água limpa e pura, colocando as mãos dentro do recipiente, o garoto sentiu a temperatura fria da água.
Após se limpar, ele desceu lentamente as escadas de pedra, pegou um pedaço de pão, que estava encima de uma mesa de madeira envernizada, após comer, o garoto abriu a porta, e respirou o ar gelado das montanhas que cercavam seu vilarejo fazendo com que a única entrada fosse o bosque.
Depois de sair de casa e fechar a porta ele observou a vila, ela tinha enormes ruas de cascalho, e todas as casas eram extremamente iguais, feitas de madeira e pedras, não muito grandes e todas com um aspecto simpático, ao olhar para uma esquina, o garoto viu uma figura alta e magra, com roupas pretas e barba longa, seu olhar era fixo nele, que o deixou assustado, ele tentou desviar o olhar, depois olhou novamente para a esquina e percebeu que o sujeito não estava mais lá.
Começou a caminhar em direção ao homem, ao chegar lá, percebeu uma aglomeração de pessoas eufóricas a alguns metros dali, ele já esperava a chegada dos mercadores, mais era cedo demais, curioso, foi andando até a multidão, antes de chegar, uma enorme mão emergiu das sombras e agarrou seu ombro direito, rapidamente ele olhou e percebeu que quem o segurava era o oráculo, um homem alto e magro, com olhos brancos e sem vida, suas vestes eram negras e sua barba longa e branca, tinha em sua cabeça um capuz que escondia seus cabelos também grisalhos.
O garoto não sabia de onde tinha vindo aquele homem, mais o respeitava, ele não conhecia seu nome, pois todas as pessoas da vila o chamavam de “Mestre”.
- Meus pêsames... Jovem Thirf – Disse-lhe com uma voz rouca, Thirf não sabia sobre o que o Mestre estava falando, mas, ele nunca errava.
Perplexo, o garoto olhou para a multidão, e quando voltou a olhar para onde estava o oráculo, ele já havia sumido em meio ao breu.
Ainda confuso, o garoto voltou a caminhar em direção a aglomeração, depois de esbarrar em algumas pessoas e chegar ao centro da multidão, Thirf pode ver um homem jovem caído no chão, sua armadura estava suja de barro e de sangue, seus cabelos vermelhos estavam esparramados sobre o cascalho, no seu ombro direito se situava uma flecha, e logo mais acima, na garganta, avia um enorme corte.
Ao vê-lo, o garoto caiu de joelhos no chão e agarrou a mão esquerda do homem dizendo:
- Thoet – Suspirou – Meu irmão...
- Dizem que ele foi encontrado ao lado de alguns soldados de Aláguilan – Sussurrou alguém perto dali.
Uma lagrima caiu do rosto de Thrif, sua mão direita segurava firme os dedos sem vida do irmão, a pele pálida de Thoet o fazia parecer mais velho, o silêncio do momento foi quebrado quando dois homens chegaram esbarrando, ambos usavam macacões sujos de terra, o mais alto carregava uma maca branca acima da cabeça, o outro mais baixo, tinha uma careca brilhante.
O sujeito alto anunciou:
- A cova já esta pronta!
Thirf conhecia aquele ritual, pois já o havia visto varias vezes, o garoto concordou com a cabeça.
Ao fazer isso, o homem mais alto tirou a maca de cima de sua cabeça e colocou ao lado do corpo de Thoet, o mais baixo, levantou o corpo e o colocou na maca, naquele momento a mente de Thirf estava confusa, o mundo parecia girar, saber que seu irmão não voltaria o deixava assustado, ele sentia uma coisa dentro de si que queimava...Fúria, medo, ódio.
“Vingança?” Se perguntou.
Os dois homens levantaram a maca e começaram a andar em direção ao cemitério da vila, eles conduziam a multidão em passos lentos porem firme.
A alguns metros do bosque Ifted se situava o cemitério, era um local escuro, haviam tumbas cobertas de musgo e enormes árvores cresciam ao seu redor. Ficando a alguns metros dele, Thirf pode ver o oráculo ao lado de uma grande cova, ele estava segurando uma tocha com a mão direita, quando entraram no cemitério, o Mestre cravou a tocha no chão e acenou para eles, apesar de ser cego, Thirf e os outros moradores da vila sabiam que isso não o impedia de enxergar mais longe do que eles.
Quando o garoto se posicionou à esquerda da cova, os dois homens colocaram cuidadosamente o corpo de Thoet e depois cobriram-no de palha.
Feito isso, o Mestre colocou as duas mãos sobre a tocha e disse:
- Tzopo!
De repente, uma fumaça negra começou a exalar da tocha, seguida de uma chama brilhante, depois disso, o Mestre olhou para Thirf e fez sinal com a cabeça.
O garoto foi em direção ao oráculo, pegou a tocha e jogou na palha seca que estava sobre o corpo de seu irmão.
Depois Thirf voltou ao seu lugar. As chamas alaranjadas queimavam alto, todos os aldeões estavam parados olhando para o fogo.
- Adui hai ul alipo, zua amla pakoo’u a mishechqaqe, há el yag – Disse o Mestre esticando os braços e abrindo as mãos.
Logo, as chamas começaram ficar azuis.
- Eu o vejo fazendo esse ritual desde que era uma criança...- Disse alguém perto de Thirf. – Nunca entendi uma palavra do que esse velho disse – Continuou ele.
Thirf sabia que o dono daquela voz era Augusth, ele o conhecia desde a morte de seu pai, ele tinha cabelos loiros e médios, seus olhos azuis contrastavam com sua pele branca, ele sempre andava com uma aljava carregada nas suas costas e um arco em seu ombro esquerdo. Augusth era apenas alguns anos mais velho que Thirf, que possuía dezesseis anos.
Uma grande luz começou a emanar de dentro da cova, o garoto observava-a atentamente, uma vez lhe disseram que aquela luz era o espírito que havia iniciado sua jornada pela eternidade, os punhos de Thirf estavam serrados, seus longos cabelos cobriam seu olho esquerdo, por dentro estava chorando, porem, não conseguia derramar uma lagrima.
A luz finalmente se extinguiu dando lugar ao escuro da noite, quando as chamas estavam baixas, os dois homens que haviam trazido o corpo de Thoet até ali encheram a cova de terra.
- Vamos embora! Ele precisa de um momento para pensar...- Disse o Mestre fazendo sinal para todos saírem.
Lentamente, as pessoas foram saindo do cemitério, o garoto estava imóvel, olhando para o tumulo de seu irmão, sonhos e lembranças, fervilhavam em sua mente como gotas de chuva caindo em solo plano.
Thoet ensinara tudo sobre a arte da guerra para seu irmão, Thirf devia muito a ele.
Após um longo suspiro, o garoto partiu de volta para o vilarejo, antes de sair do cemitério, ele deu uma ultima olhada para o tumulo e partiu.
A vila estava deserta e mal iluminada, a lua cheia brilhava fortemente no céu escuro, o garoto havia passado a vida inteira naquele lugar, hoje porem, ele não se lembrava nem o caminho de sua casa. Começou a vagar pela escuridão, espremendo seus olhos para não se chocar com alguma parede, estremeceu ao sentir o vento frio batendo em sua pele.
O dia estava quase amanhecendo quando Thirf chegou a sua casa, ele estranhou o fato da porta estar entreaberta mais não deu muita importância, empurrou-a lentamente, as dobradiças enferrujadas soaram um rangido baixo. Quando fechou a porta, suspirou ao lembrar novamente de seu irmão. Dentro de sua casa, estava mais escuro do que do lado de fora a não ser por ou fecho de luz que penetrava por uma janela que ficava perto da escada.
Seu coração acelerou e seu corpo começou a tremer ao ver uma silhueta sentada em sua escada.
Ao perceber a chegada do garoto, o homem se levantou e começou a caminhar em sua direção.