Friday, November 13, 2009

CAP. XI

Capítulo.XI.

A moça que Thirf vira no espelho vai lentamente abrindo seus grandes olhos azuis. Ela estava com aparência pálida e abatida. Pulou de susto quando percebeu que alguém a observara.

- Quem é você? – Perguntou em voz melodiosa, porém forte.

- Handar... Meu nome é Handar... – Handar era um homem grande e robusto. Tinha barba e cabelos longos da cor preta. Vestia uma camisa xadrez e uma calça branca, ambas de algodão muito simples. – E você?

- Hadige... – Disse ela olhando em volta. – Que lugar é esse?

- É a minha cabana no pico Fibatsi ao norte da floresta Siblare.

Hadige continuou olhando. Ela estava numa cama em uma cabana de madeira. A moça logo presumiu que Handar era um lenhador pelo machado encostado na parede perto da porta e pelo tamanho do homem.

- Te achei desmaiada no meio da floresta... Estava fugindo de Finox? Eu soube que a destruíram...

- Não me lembro, - Hadige se levantava lentamente. – passei o dia lá, falei com o chefe da aldeia, até participei de uma celebração... Mas depois disso cansei, fui me deitar e não lembro de nada...

- Estranho... – disse Handar coçando a barba. – Há! – Apontou para a mesinha ao lado da cama. – Seu medalhão está ali, nunca vi nada igual.

- Há... Sim. – Hadige pegou o medalhão e o observou enquanto movia o objeto entre os dedos. O medalhão era feito de bronze. Havia quatro pedras amarelas incrustadas nele. Havia também algo escrito, mas Hadige nunca conseguira ler. – Era da minha avó, ela era uma ótima feiticeira... Foi assassinada por um feiticeiro que ela amava. – Fez cara de desgosto enquanto colocava-o no pescoço. – Por isso, nunca acreditei no amor...

Handar assentiu depois pegou o machado e olhou para ela dizendo:

- O dia começou e não sai de casa ainda... Vou trabalhar. – Apoiou o machado no ombro direito. – Pode ficar mais um tempo, você ainda está fraca...

- Obrigado. – Hadige conseguiu responder antes de ver Handar saindo pela única porta do lugar.

“Finox destruída... Maldição, papai não vai gostar disso, uma das poucas aldeias aliadas! Mas... Quem... Quem?” Rapidamente Hadige pulou da cama e começou a vasculhar o lugar. Praguejou após meia hora de busca. Achou ridículo Handar não ter um espelho por mais feio que fosse.

Com um estalo, olhou para o vidro da janela onde podia ver de leve seu reflexo.

Por mais que Hadige ficasse parada, seu reflexo se movia de um lado para o outro como se estivesse tenso. Quando percebeu que estava sendo observada, o reflexo parou e começou a olhar para Hadige.

- Você! Onde você estava até agora? – Perguntou o reflexo apontando para Hadige.

- O que houve com Finox? – Hadige repassou a pergunta.

- Finox! Finox está em cinzas! Tropas Háried invadiram a aldeia, descobriram que estávamos lá e o que queríamos fazer... – Explicou o reflexo.

- Mas e o tratado de Mur... – A garota tentou falar, mas o reflexo a interrompeu:

- Tratado de Mureal... Blá, blá, blá... Não existe tratado! Os Háried tem um projeto... Eles querem reunificar toda Samech. Extinguir os Masira e colocar as colônias sob seu controle, mas... Pra isso. – Mexeu no medalhão que trazia em seu pescoço. – Precisa reunir as três chaves e encontrar o poder descrito nas lendas.

Hadige repetiu o gesto do reflexo.

Sua conversa foi interrompida quando ouviu uma trombeta ao longe.

Fazia algumas horas que Thirf e Augusth deixaram Kindol. O Sol começava a raiar. Ambos não diminuíram a marcha desde que saíram da cidade. Já começavam a ver a ponte sobre o rio Tunari.

- Não devemos parar? – Gritou Augusth.

- Não! Estamos perto... – Gritou Thirf balançando a cabeça.

A noite foi longa, não pararam um segundo. Tentaram passar pela ponte na cidade de Kindol, mas ela dava acesso à ala “rica” da cidade e também a saída leste. Porém, para passar por ela, teriam que desembolsar uma grande quantia em ouro, que por um acaso não tinham.

Thirf pensara em tudo que Eva dissera. Chegou à conclusão de era apenas uma bruxa louca.

Lanero, e Alkui costeavam o Tunari em direção ao sul. O clima era fresco, pequenas gotículas de água voavam com o vento. Thirf e Augusth estavam aquecidos pelas roupas dadas pela bruxa.

De surpresa, uma criatura estranha saltou de dentro da terra entre os dois cavalos fazendo-os caírem com os dois jovens. Antes de Thirf e Augusth se recuperarem, Alkui e Lanero saíram em disparada.

- Maldição! O que era aquilo? – Gritou Thirf se levantando.

- Talvez o motivo pelo qual a bruxa disse: “Essas estradas não são seguras ao amanhecer...” – Augusth ainda estava no chão e olhou para Thirf com cara de graça.

Thirf bufou.

- Thirf, olha! – Apontou Augusth, ainda no chão.

Seu dedo indicava um uma elevação de terra que seguia os cavalos. Thirf ficou parado sem reação apenas observando.

Augusth se levantou e tirou seu arco das costas. – Tomara que eu esteja certo... – Sussurrou ele. Puxou uma flecha de sua aljava e esticou a corda de seu arco.

Os cavalos, e a elevação de terra que os seguia, estavam a uns 45 metros de distancia do arqueiro. Augusth ficou imóvel, com o arco preparado. Seus olhos, fixos no ponto de terra.

Num estalo, a criatura saltou da terra pronta para abocanhar Lanero. Nesse instante, Augusth disparou sua seta que acertou no meio da criatura. A criatura parecia uma larva, só que, muito maior.

“Bom tiro...”. Augusth pensou. “Bom tiro.”.

Sangue verde começou a jorrar da ferida da larva, que aparentemente estava morta.

Os cavalos seguiam correndo.

Thirf olhou para Augusth como se descesse: “Ótimo trabalho, estou assustado, mas fez um ótimo trabalho...”.

Ao longe alguém gritou algo que nem Thirf, nem Augusth entenderam.

Os cavalos pararam como se tivessem virado pedra.

Thirf olhou para os cavalos, e percebeu uma silhueta negra entre eles. O homem acariciava os animais, que permaneciam imóveis.

O jovem de cabelos vermelhos começou a correr na direção dos cavalos.

- Pare! – Gritou o homem.

Thirf ignorou.

Então o homem apontou algum objeto para Thirf e pronunciou:

- Yare! – E assim como os cavalos, Thirf ficou paralizado.

O homem abaixou o objeto e disse:

- Vocês tem que entender... Parem de caminhar!

- Por que deveriamos? – Berrou Augusth.

- Essas criaturas... – Apontou para a larva. – Elas sentem nossos passos.

- Liberte meu amigo... – Ordenou Augusth.

Logo, Thirf voltou a se mover.

- Existem muitas outras dessas? – Perguntou Agusth.

- Milhares, - Respondeu o homem. – e para a nossa alegria... Só caçam ao amanheçer...

Augusth olhou para Thirf e voltou a falar com o homem:

- O que devemos fazer?

- Ficarmos parados, e rezar para que...

Um ruído foi ouvido por uma longa extensão do terreno.

- O que foi isso? – Gritou Augusth.

- Vocês! Corram até aqui! Rapido!

Thirf e Augusth se entreolharam e começaram a correr a correr na direção do homem.

Varias bolhas de terra surgiram no solo, essas bolhas logo estouravam e larvas, semelhantes as que Augusth matou, saltam metros de altura e depois penetram na terra novamente.

Os jovens de Larbah desviavam como podiam conforme as criaturas saltavam a sua volta.

- Garoto! – O homem desembainhou a espada de Thirf e jogou para ele.

Thirf saltou e segurou a arma com a mão direita. Sem agüentar o peso da enorme lâmina, Thirf deixou a ponta da espada colidir com o solo produzindo uma rachadura.

Augusth disparava setas nas criaturas, matou oito até alcançar Thirf na corrida. Thirf arrastava a lamina no chão enquanto corria.

Rapidamente ambos alcançaram o homem. Nisso, o homem pegou o cajado qual o qual abatera algumas criaturas, colocou sua mão direita sobre uma ponta onde se encontrava uma pedra azul-brilhante.

- Mug qe ychovezi! – Gritou o homem.

Uma cúpula azul surgiu em torno e abaixo de todos.

Thirf e Augusth olhavam em volta impressionados. Todas as criaturas que se chocavam com a cúpula acabavam sendo jogadas a metros dali.

- Aqui ficaremos seguros... – Disse o homem encapuzado. Ele continuava segurando o cajado com a mão esquerda e com sua mão direita sobre a pedra, que irradiava um brilho azulado.

- Quem é você? – Perguntou Thirf parado ao lado de Lanero.

- Acho que é um pouco cedo para apresentações não acha? – O homem soltou uma leve risada. – Mas lhe asseguro que não desejo mal algum a vocês...

A quantidade de criaturas que colidiam com a cúpula era cada vez maior. A barreira repelia as que tentavam penetrar sobre os pés de todos.

Assim foi até o entardecer, quando as criaturas cansaram e decidiram voltar a seu repouso. Ao perceberem que estavam em segurança, o homem ergueu a mão que se encontrava sobre a pedra azul e pronunciou:

- Qeztzeivo!

A cúpula azul sumiu e o brilho saído da pedra cessou.

Augusth que estava sentado se levantou rapidamente.

Thirf caminhou até o homem e perguntou:

- Hora de respostas...

- Certamente... – Respondeu o homem sorrindo. De perto se percebia que o homem era um tanto mais alto que Thirf e Augusth. – Meu nome é Brian... – Disse tirando o capuz. Seu rosto não agradava Thirf. Brian possuía cicatrizes pelo pescoço e um cabelo enrolado. Seus olhos eram amendoados e abaixo de seu queixo haviam alguns fios de barba.

- Você estava em Kindol, não é? – Perguntou Augusth se aproximando.

- Sim... Normalmente venho para essa área essa parte do ano. – Brian caminhou até os cavalos, colocou as mãos sobre eles e sussurrou algo.

Instantaneamente os cavalos voltaram a se mover.

- E vocês? De onde são, para onde vão? – Perguntou Brian rabiscando alguma coisa com seu cajado no chão.

- Somos de Larbah, estamos em viajem para Aláguilan... – Respondeu Augusth sorrindo.

Thirf lançou um olhar fulminante para ele. “Diz também o que iremos fazer lá...”. Pensou com desgosto.

- Aláguilan! – Brian disse surpreso. – Então estamos nos mesmos caminhos. – Brian bateu com a ponta do cajado duas vezes onde estava escrevendo e disse:

- Rchiach... – Com isso uma criatura começou a brotar da terra.

Augusth arregalou os olhos. Da terra saíra algo parecido com um cão negro devidamente selado para montaria, a criatura era um pouco menor que os cavalos. O animal olhou para Brian. O mago passou a mão em sua cabeça.

- Posso acompanhá-los? – Brian ainda acariciava o animal.

Antes que Augusth abrisse a boca, Thirf disse em tom solene:

- Não, viajamos sozinhos...

- Viajar sozinhos pode não ser uma boa escolha, ainda mais pra vocês, vindos de uma cidade isolada... – Brian sorriu. – E pelo o que aconteceu hoje, parece que vocês nunca viajaram por essa região. Samech esconde perigos... Muitos dos quais nunca ouviram falar.

Thirf ficou em silencio um instante. Por mais que fosse ruim, ele tinha que concordar que não conhecia Samech do lado de fora das montanhas Fild. A complexidade de seu mundo ia até onde seu irmão o contava.

- Podemos fazer uma troca... – Sugeriu Augusth.

- Não é má idéia... – Respondeu Brian. – Mas o quê?

- Conhecimento... – Thirf interrompeu a conversa. – Quero que nos ensine todo o que você sabe.

Brian pensou na proposta e rapidamente assinalou com a cabeça.

- Tudo bem... Lhes ensinarei o que eu sei... Política, meditação, literatura e é claro... – Abriu um largo sorriso. – Magia!

Augusth sorriu também.

“Foi muito fácil...”. Pensou Thirf olhando para Lanero. Seu cavalo parecia meio acuado com a presença da criatura que Brian criara.

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