CAP. X
Capitulo.X.
- Uma caneca só você disse. – Augusth não conseguia conter o riso. Ele, Thirf e alguns outros homens ocupam aquele lugar abafadiço. Três longas mesas de pedra se estendiam na vertical no meio do salão. No centro do teto girava um enorme ventilador de madeira.
Thirf e Augusth estavam em uma dessas mesas, um de frente para o outro. Thirf não respondera nada, apenas movimentava a caneca por entre os dedos. Um sujeito estranho vinha carregando mais duas canecas em uma bandeja.
- Senhores... – Disse em voz suave enquanto os servia. Augusth o olhou de cima a baixo sem ao menos disfarçar. O garçom tinha pernas e braços muito longos para seu pequeno corpo. Em sua testa ele trazia um chifre curto e reto, como o de um unicórnio – Observou Augusth, que só conhecera unicórnios e outras criaturas fantásticas por meio de estórias contadas por Thoet e alguns forasteiros que sonhavam escalar as Fild – A criatura sorriu mostrando seus dentes amarelos como ouro e falou para o arqueiro:
- Pelo jeito o senhor nunca viu outro da minha raça não é?
Augusth quase se engasgou com a bebida ao notar que a criatura o percebeu observando-o. Logo, seu rosto branco tomou um tom rubro.
- Você é um Himu não é? – Perguntou Augusth franzindo a testa.
- Não... – Respondeu ele forçando um riso. – Um Himu parece com um porco! Eu sou um Sasmito, descendente da linhagem real dos Ámitos de Olfy! – Disse com orgulhos.
- Olfy? – Balbucionou Thirf. – Isso é lenda!
- Muitos acham isso... A morte de Aljazév trouxe a ruína para nossos domínios e acabou levando nossos genitores. Você ainda pode encontrar suas ruínas se partirem para o sul, até a outra extremidade dessa terra.
Thirf deixou a voz do Sasmito se espalhar pelo ar, até que ele se virou dizendo:
- Agora eu tenho que ir, já me demorei muito aqui nessa mesa e as pessoas tem sede meus jovens!
Augusth pareceu satisfeito com a conversa. Thirf voltou seu olhar para a sua caneca e tomou mais alguns goles.
- Interessante não acha? – Perguntou Augusth. Thirf apenas balançou afirmativamente. – Alem daquele elfo estranho que apareceu lá em Larbah, a única raça que em tenho visto são humanos.
Um som de piano pairava no ar, mas nem Thirf nem Augusth conseguiram enxergar o instrumento. O garoto ruivo, jamais saíra dos limites das Fild e, como Augusth, jamais vira outro ser alem de humanos, uns poucos elfos... E, o ogro que o atacara no bosque.
- Meu ouro pela sua sabedoria... – Disse Augusth vagamente.
- Larbah... O Mestre, Iato o carpinteiro, Roko o taberneiro... E até aquele miserável do Kaimy. – Suspirou. – Como será que estão? Já estou com saudades daquele ar das montanhas...
Augusth sorriu e deixou o nome “Mylla” escapar entre os lábios.
- Já anoiteceu... – Thirf olhava o brilho branco da lua que entrava pelo vitral da janela.
- Vamos voltar para pensão?
- Não... Não temos dinheiro para gastar assim. – Disse Thirf tirando os olhos do vitral e olhando para Augusth. – Vamos seguir caminho e acampar fora da cidade.
- Thirf... - Disse Augusth com expressão serena. – Você sabe que, sua vida se transformará num inferno se conseguir matar o príncipe não é...
- Não importa Augusth, tudo que eu quero é lavar a honra de meu irmão, o que vier a acontecer depois foge ao meu controle.
- Essa vingança! Foge ao seu controle. – Esbravejou um pouco Augusth.
- Não vou discutir isso... – Thirf se preservou tranqüilo. – Vamos agora, temos muito chão a cobrir ainda.
- Certo. – Ambos se levantaram foram saindo. A taberna estava escura, sendo iluminada apenas pela luz da lua nos vitrais e alguns lampiões que cheiravam a um material desconhecido.
Os olhos de Thirf sem querer bateram em um sujeito estranho. Ele estava em um canto do lugar, não bebia nada, apenas estava sentado. Um daqueles lampiões estava sobre a mesa redonda que estava na frente dele. Thirf não pode ver os olhos da criatura, pois um capuz negro cobria inteiramente sua face, mas sabia que ela o observava.
Fora da taberna, a brisa do mar era fria de doer os ossos, muito diferente do ambiente anterior. O brilho prata da lua cobria a extensão de mar até onde a vista deles alcançava.
Lanero e Alkui estavam no estábulo à frente da Bigorna.
Antes de adentrarem o estábulo uma voz idosa fez-se ouvir:
- Jovem de cabelos em chamas, irmão do traidor-morto, tenho uma visão para você...
Thirf se virou para vislumbrar quem lhe falava. Era uma senhora baixa e robusta, cabelos negros e feições amigáveis.
- Não creio em visões... – Respondeu Thirf enquanto Augusth olhava a velha. – Peço-lhe apenas respeito pela memória de meu irmão... Ele não era, - Antes que se pude terminar, a senhora disse:
- Thoet... – Tomou um pouco de fôlego. – Ele também não acreditava... Acho que morreu sem acreditar.
Thirf abriu a boca para falar, mas a senhora lhe tomou a palavra novamente:
- Sim meu jovem, eu o conheci, li sua aura uma vez se quer saber... Era uma aura boa, porém corrompida por ganância e inveja... Não o culpo. – Suspirou um pouco. – Por favor, jovem Thirf, vem comigo não quero nada mais do que seu tempo...
O garoto franziu a testa e ficou em silêncio sem tirar os olhos da senhora.
Caos, isso foi tudo que Kiraidáh encontrou ao adentrar as fronteiras das Fild e visualizar os restos de Larbah. Era noite ainda porem seus olhos tinham a habilidade de enxergar no escuro total como se fosse dia. Era o fim de Larbah, o que não estava em cinzas, estava em pedaços. Fumaça ainda se esvaia de uns poucos pontos. No centro disso tudo se encontrava uma figura negra. Estava de costas para Kiraidáh quando este pousou.
- Olá Kiraidáh ou... Sydrath, tanto faz...
Kiraidáh ficou surpreso, - porém isso não podia transparecer na máscara de cerâmica -tanto com o fato de saber que ele estava ali, quanto o fato de conhecer seus nomes.
- O que procura não esta aqui, o que... É uma lástima.
“Onde está o orbe de Aljazév!” Disse Kiraidáh mentalmente para o homem.
- Você não é surdo que eu sei... – O homem se virou para a criatura e revelou ser o oráculo de Larbah.
“E você não é tolo que eu sei...” Interveio mentalmente Kiraidáh. “Sei que tem poderes místicos, consigo sentir o cheiro... Quero que me diga onde está o orbe de Aljazév! Use seus poderes!”.
- Lhe ajudaria se eu pude-se, porém não posso, meus poderes se limitam á Larbah e sei que ele não está aqui... “Mentira!” Berrou Kiraidáh.
- Então vasculhe minha mente! Tudo que vai encontrar e algumas bênçãos para bebês e alguns funerais... Antes que ele termina-se, Kiraidáh colocou a palma na testa do Mestre.
Os três caminhavam pelas ruas de madeira da cidade-cais chamada Kindol, a lua branca pairava sobre eles em um céu límpido.
“Traidor-morto?” Isso era o que assolava a mente a mente de Thirf.
- Ainda não sabemos o seu nome... – Disse vagamente Augusth.
- Eva... Meu nome é Eva. – Respondeu olhando de soslaio para Augusth e logo voltou a olhar para frentes. Eva vestia alguns trapos de múltiplas cores. – Chegamos... – Eva apontou para uma enorme tenda negra coberta de estrelas branco-brilhante que estava a uns poucos metros de onde estavam.
Ao chegarem, Eva puxou um pano revelando a entrada da tenda:
- Entre Thirf... – O garoto penetrou na tenta. Augusth tentou segui-lo, mas Eva o barrou. – A visão é para ele cabelos-dourados... Quando for sua você poderá entrar...
Augusth fez cara feia mas concordou.
O ambiente era um pouco escuro, porém incrivelmente amplo e confortável. No centro do local acima de um tapete roxo se encontrava um enorme espelho que brilhava como se possui-se luz própria.
Movido pela curiosidade, Thirf foi até o espelho. O estranho objeto refletia tudo ao redor menos a figura do garoto.
Thirf experimentou tocá-lo e o espelho começou a dançar como água e começou a mostrar a imagem de uma floresta obscura.
Correndo entre as árvores estava uma garota desconhecida para Thirf. O garoto percebeu que perto daquela floresta algo pegara fogo. Longos cabelos negros esvoaçavam, uma calça preta de algodão e uma blusa preta também, porém de couro – Bem decotada. Pendurado no seu pescoço estava um medalhão circular com um orifício no centro. Havia algumas coisas escritas ao redor do orifício, mas Thirf não consegui enxergar direito. De cada lado de sua cintura pendiam duas bainhas com suas devidas armas.
Thirf se assustou quando um homem saltou das sombras na direção da garota. Ficou mais assustado ainda quando ela, sem parar de correr, esticou o braço e gritou:
- Hôe! – Uma espécie de onda saiu da mão dela e atingiu o homem fazendo-o voar de volta para o lugar de onde veio. “Magia...” pensou Thirf. Sua linha de pensamento foi interrompida quando outro homem surgiu diante dela armado com um arco.
A garota parou, mas mesmo assim o homem disparou sem dizer nada.
- Yache! – Conjurou a garota.
A flecha parou no ar exatamente onde estava.
Antes que o homem pude-se puxar outra flecha da aljava, a garota desembainhou ambas as espadas e partiu para cima dele. Com um golpe ágil e eficaz, o arqueiro caiu morto enquanto a garota seguiu correndo.
Lentamente, o reflexo no espelho foi tomando sua antiga forma, até que tudo dentro da tenda fosse refletido. Thirf ficou surpreso por agora poder ver seu reflexo e notar que estava com expressão abatida. Alguns fiapos de barba começavam a crescer em sua face ele pode observar.
Sem mais delongas, Thirf saiu da tenda. Tentou dirigir a palavra á Eva, porém, ela o interrompeu dizendo:
- O que você viu é para você... Pode não entender agora, mas a hora esta chegando.
Thirf nem tentou argumentar por que sabia que todas as respostas seriam como aquela.
- Esperem um pouco aqui... – Disse Eva. Ela entrou na tenda.
- Será que ela vai nos cobrar pela visão? – Perguntou Augusth pondo a mão no saco de moedas que pendia da sua cinta.
- Se eu disse que só tomaria seu tempo é por que eu só tomaria seu tempo... – Disse Eva saindo da tenda com alguma coisa nas mãos.
Thirf bufou quando pensou o quanto odeia aquele habito dela.
Eva o olhou, mas sorriu.Thirf ficou assustado com a idéia de alguém ler seus pensamentos.
- Trouxe uma coisa aqui para os dois. – Disse ela chacoalhando as mãos. – Os dias estão ficando mais frios, a neve se aproxima minhas crianças. Por isso, tenho presentes para vocês. – Eva olhou para Augusth. – Para você, cabelos-dourados, tenho isso. – Entregou uma capa preta com capuz de um material leve e fino.
Augusth a vestiu e se surpreendeu com o calor produzido por aquela capa tão fina.
- E para você, cabelos em chamas, tenho isso. – Entregou para Thirf um cachecol vermelho e dourado do mesmo material leve e fino da capa de Augusth.
Thirf o colocou em volta do pescoço e sentiu seu corpo inteiro se aquecer.
- Como isso é possível? – Perguntou Thirf.
- O material do qual essas roupas são feitas se chama Bítrin, vem dos elfos. Ele tem essa reação dependente ao clima, se estiver quente, ele refresca, se estiver frio, esquenta.
Os dois fizeram cara de que entenderam.
- Muito obrigado Eva. – Disse Augusth.
Eva sorriu para ele e depois disse para os dois:
- É claro, fiz uns melhoramentos neles, vocês vão descobrir. Lembre-se dessa palavra, cabelos-dourados: Imbilizit.
Os lábios de Augusth se abriram pra dizer algo, mas Eva o interrompeu dizendo:
- Não a repita garoto! Só a use em caso de necessidade, essa palavra tornará quem usa a capa invisível aos olhos humanos normais, porém, quem diz essa palavra perde suas energias até que a palavra solari seja dita por ele ou por outro... Claro, se a palavra solari for dita a capa e quem a usa voltará a ser visível.
- Uau... – Augusth deixou escapar enquanto examinava a capa. Não pode deixar de demonstrar sua alegria ao receber um item de tal poder. O único contato que tivera com magia foi com alguns feitiços feitos pelo oráculo.
- Não vai perguntar a habilidade do seu presente Thirf? – Perguntou Eva com um rosto risonho.
- Você sabe exatamente o que eu vou dizer não é? – Thirf parecia não gostar muito da brincadeira de Eva.
A senhora soltou um riso e depois disse ao garoto:
- As vezes, meu jovem, as vezes... E, você ia perguntar a habilidade, mas depois observou que sei tudo que você vai falar antes que diga... – Riu novamente. – E, não, não consigo ler pensamentos, apenas tenho um... Pressentimento do que as pessoas vão falar minutos antes de dizer. – Parou para ver a reação de Thirf.
Ele estava confuso, sua mente fervilhava de novas perguntas, inclusive por que aquela senhora tratou seu irmão daquela maneira.
- Certamente está confuso... – Disse Eva sorrindo. – E também tem milhares de perguntas por que... Não estou conseguindo ler nada com exatidão. – Retomou sua expressão séria, porém sempre doce. – Agora escute jovem, todas as suas perguntas serão respondidas a seu tempo, inclusive a função mágica do seu cachecol. – Piscou para Thirf. – Agora vão, pela bagagem que carregam presumo que é uma viagem longa e terão que cavalgar durante a noite... Vão! Essas estas estradas não são seguras para cavalgada ao amanhecer por isso quando o Sol raiar, acampem e se protejam...
“Ela sabe mais do que afirma” Pensou Thirf. “Ela não pode presumir tudo aquilo somente pelas nossas bagagens... Porém, isso é a de menos importância... O que ela quis dizer com: Essas estradas não são seguras para cavalgar ao amanhecer “Há algo de estranho por aqui“.
Eva penetrou na tenda sem dizer mais nada.
- Vamos Augusth...
Augusth o seguiu sem dizer nada.
“O irmão de Thoet e o órfão de Ozbek... Nunca pude imaginar que o destino de nossa terra estive-se nas mãos de duas crianças! O que você tem na cabeça seu tolo! Entregou uma das três relíquias e deixou a outra saírem daqui com eles! Você condenou nosso continente velho...”. Dizia mentalmente Kiraidáh para o Mestre, que estava caído no chão depois da busca que Kiraidáh fez nas suas memórias.
- E estaria melhor nas mãos do rei? – Indagou o Mestre. Ele ouviu Kiraidáh rindo dentro de sua mente, talvez uma resposta sarcástica a sua pergunta.
Kiraidáh deu um salto mais de três metros e abriu suas assas.
A alguns quilômetros de Larbah em um lugar escondido nas montanhas Fild. Um homem caminhava por túneis mal iluminados. Vestia camisa branca de manga longa e calças pretas. Em seus pulsos, sobre as mangas da camisa, haviam tiras de couro preto amarradas como se fossem um enfeite estranho da camisa. Usava luvas da mesma cor das calças. Em sua mão direita carregava uma katana em uma bainha negra. Seus cabelos eram curtos e espetados castanho-escuro.
Era escoltado por Artch, general das tropas tsu-arkanianos. Artch era uns dez ou quinze centímetros maior que o outro rapaz.
Ninguém dizia uma palavra ao longo do caminho.
Pararam diante de uma porta enorme onde dois guardas bateram continência e depois a abriram aquela porta de madeira.
Ambos penetraram em uma enorme sala com um teto abobadado. Lá, se encontravam mais de quinhentos guerreiros agrupados em tendas roxas.
O homem passou por eles sem olhar pros lados.
Entrou em uma porta menor que a primeira, porém lindamente ornamentada. Artch ficou do lado de fora.
- Olá Khaod... – Recepcionou uma voz vinda das sombras. Khaod apenas balançou a cabeça. – Sabe que esta aqui porque tenho um trabalho para você... – Continuou a voz.
Khaod permaneceu sem esboçar reação nenhuma apenas moveu seus olhos avermelhados por toda extensão da sala.
- Meus vigias, - Continuou a voz. – que estão postados ás redondezas do vulcão Brêod me informaram que um jovem ruivo e outro loiro passaram por lá, talvez em direção a Kindol ou Lasgro. – A sombra se levantou de seu trono e foi caminhando até Khaod. Suas feições puderam ser vistas quando atravessou um raio de luz que penetrava do teto de pedra.
Não tinha cabelo, pois a idade já lhe era muita, porém possuía uma bela barba branca. Era quase do mesmo tamanho que Khaod, pois a fusão gnomo-elfo o impedira de crescer normalmente, mas também o impedira de ficar tão baixo quando os gnomos normais. Vestia uma túnica vermelha com ornamentos dourados. Em geral, parecia um rei.
- Lhe daremos um dragão, já que nem a cavalo você conseguiria alcançá-los. Quero orbe que está com o garoto ruivo... Matá-los... Fica a sua escolha.
Khaod fez cara de quem entendeu, apanhou no ar um saco com moedas que Liragon jogara.
- Aí tem metade do pagamento combinado, dinheiro para seus gastos na missão e... – Riu em seu tom rouco. – Umas moedas para você beber algo... A pilhagem de Larbah foi melhor do que eu esperava...
Khaod manuseou-o um pouco sentindo seu peso. Depois, amarrou-o na cinta e depois deus as costas as costas para Liragon saindo pela porta por onde entrou.


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